Quarta-feira, Maio 21, 2008

eu hoje comprei isto

Sou tão infantilóide.

Gosto muito


ovos quentes

Noutro dia, dei com um brasileiro entrocado, à entrada da minha cozinha, com três ovos na mão. "Dona, as galinhas estão a pôr em cima da areia. Ainda estão quentinhos". Num momento a derrubar paredes, no outro a apanhar ovos com extrema delicadeza.
Os pedreiros da minha casa surpreendem-me todos os dias. Eles chegam, procuram os cães, levam-nos ao colo para dentro do galinheiro, para que não fujam e ainda me avisam: "Dona, está ali o homem do gás".
Num outro dia, diferente do de hoje, reparei que um se ria, do alto de um andaime, ao ver-me a tentar apanhar uma galinha que entrara à sorrelfa pela sala dentro. A minha figura era bastante mais ridícula do que a da galinha, que, não contente com a humilhação, ainda deixou uma poia simetricamente no centro da sala.
Já estive mais longe de as comer, mas infelizmente, dei-lhes nome: Samantha, Sabrina e Pamela - em honra dos seios fartos seios - e quando se nomeia não se pode matar, ensinou-me a mãezinha.

A minha casa

"Quero uma mesa,
pão sobre essa mesa,
na toalha de linho nódoas de vinho
quero só isso, nem isso quero"

Ruy Belo
É assim que um amigo que está lá longe, para lá de Guimarães, vê a minha casa. Não errou.

Maria

Já estávamos à espera há muito tempo. Ontem ao ver tantas chamadas não atendidas, adivinhei o que uma mensagem viria a confirmar - a avó já descansou. Fiquei paralisada e assustada por não saber onde pôr as mãos, não sentir nada, nenhuma lágrima a sair, tudo cá dentro, como se a avó descansou fosse eu já descansei. As paredes da casa, os martelos a partir, ignorantes de tudo, a minha cabeça. "Oh gata da avó", foi a única coisa de que me lembrei, das suas mãos e dos ovos mexidos e de um nariz arrebitado, provocador e um olhar altivo e crítico. Não vou poder mais olhar para esses olhos, avó, hoje já estarão fechados, em paz. E o que será que tu vês? Será que vês melhor do que o que viste nestes sete anos de tortura? Encontraste o avô? Deixa-me adivinhar... estava a pintar um portão. Quase tenho a certeza que te disse: "Maria, olha a minha Maria", ao que tu terás respondido: "João, esse portão não está nada bem, homem, estás a dormir ou quê?". Estão os dois a dormir, mas não sabem disso. Eu tenho vergonha de espreitar, de vê-los como eram, cabelos rijos, pele macia e escurecida pelo sol. "Maria, vou buscar papo secos", "outra vez, homem? ainda de manhã lá foste", "pode aparecer a gatinha para lanchar", "então vai lá e traz também um pacote de leite". "Avó, posso ir com o avô à serração?" "Podes, mas não o largues, há lá muitos homens que a gente não conhece". E assim fazia e carregava sacos de serradura para o galinheiro. "Estás a ver aquela vaquinha que há junto à estrada? É a vaquinha do avô. É esta que está aqui no pacote". "O avô vai buscá-lo todos os dias, antes de acordares".
(não consigo acabar este post)

Terça-feira, Maio 20, 2008

Estar à janela sempre foi o meu hobby preferido.


Eu hoje acordei assim!


Não me deixem os restos!

Nhe, nhe, nhe, nhe

Bossa Nova é a prova de que há felicidadi

Domingo, Maio 18, 2008

Quando eu escrever um livro, a capa vai ser assim*

* há que começar por alguma parte

Quinta-feira, Maio 15, 2008

As drogas têm coisas boas e coisas menos boas

O Instituto da Droga e da Toxicodependência construiu um site para jovens - e muitos jovens - sobre a droga. Chama-se "Tu Alinhas" . Este site foi pago por nós e merece uma visita cuidada. Para além de uma ambivalência entre o lado bom e o lado mau das drogas, esta pérola traz ainda um dicionário de calão sobre "drogas" em que um "betinho" é aquele que não dá nela, uma veia é um "cano" e um "cocó" é um "betinho". Ao ler as descrições sobre as drogas, é impossível não ficar com uma vontade irresistível de experimentá-las. Para completar, na área Kids, um montro vindo de uma "bad trip" responde às questões dos pequeninos. No menu lateral direito, existe um link de filmes aconselhados para este target: "Kids", "Trainspotting", "Morrer em Las Vegas", "Delírio em Las Vegas", ou "Blow".
Se eu fosse uma criança, esta era a minha porta de entrada para o mundo da droga.

Mas como se fosse possível não piorar, o site tem um link para outro endereço maravilhoso que é: http://gripeinfantil.dgsaude.min-saude.pt/atchim/default.asp O LADO DIVERTIDO DA GRIPE!
Melhor do que um "agarrado" é um "agarrado" cheio de gripe! É a loucura total!

Quarta-feira, Maio 14, 2008

As citações acabam aqui.

Lovesong*

He loved her and she loved him
His kisses sucked out her whole past and future or tried to
He had no other appetite
She bit him she gnawed him she sucked
She wanted him complete inside her
Safe and Sure forever and ever
Their little cries fluttered into the curtains

Her eyes wanted nothing to get away
Her looks nailed down his hands his wrists his elbows
He gripped her hard so that life
Should not drag her from that moment
He wanted all future to cease
He wanted to topple with his arms round her
Or everlasting or whatever there was
Her embrace was an immense press
To print him into her bones
His smiles were the garrets of a fairy place
Where the real world would never come
Her smiles were spider bites
So he would lie still till she felt hungry
His word were occupying armies
Her laughs were an assasin's attempts
His looks were bullets daggers of revenge
Her glances were ghosts in the corner with horrible secrets
His whispers were whips and jackboots
Her kisses were lawyers steadily writing
His caresses were the last hooks of a castaway
Her love-tricks were the grinding of locks
And their deep cries crawled over the floors
Like an animal dragging a great trap
His promises were the surgeon's gag
Her promises took the top off his skull
She would get a brooch made of it
His vows pulled out all her sinews
He showed her how to make a love-knot
At the back of her secret drawer
Their screams stuck in the wall
Their heads fell apart into sleep like the two halves
Of a lopped melon, but love is hard to stop

In their entwined sleep they exchanged arms and legs
In their dreams their brains took each other hostage

In the morning they wore each other's face

*Ted Hughes

O que eu te diria*

O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos
como há depois da música, nas flores,
e no começo da noite...

O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;
minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão
sem pertencerem.

O que eu te diria tem-te esperado muito.
Por isso te sabe de cor e te perco tanto;
e dos longos diálogos que é não chegares
vais morrendo, excessiva, de ti mesma.

Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos
olharás em mim o teu rosto com os olhos brancos,
como se olhasses tua morte mais pura
*Vítor Matos e Sá

Terça-feira, Maio 13, 2008

13 de Maio, versão para fumadores





13 de Maio





Para fãs da gatinha

O vibrador Hello Kitty!
Quatro cores à disposição à venda aqui!

A Internet vestia as miudezas das senhoras


Ver explicação aqui!

ese hospital Miguel Bombarda*

"Desde el sofá cercano, me he dedicado a evocar el manicomio de Lisboa en el que escribe sus novelas Lobo Antunes. Las escribe todos los días en el hospital Miguel Bombarda de Lisboa, un conjunto arquitectónico del siglo XVIII que en sus pabellones alberga enfermos psiquiátricos con distintas características mentales. Durante años, Lobo Antunes trabajó como médico en ese hospital, y aunque hace años que dejó de pasar consulta sigue conservando allí su despacho y es en él donde escribe todas las mañanas cuando está en Lisboa.He pensado en ciertos parecidos entre Lobo Antunes y el doctor Pasavento que en Napóles visitaba la residencia de Campo di Reca donde estaba Morante, es decir, he pensado en ese punto en común (de orden médico) que hay entre Lobo Antunes y yo. Me he quedado simulando que miraba hacia la calle, pero en realidad jugando a pensar que estaba controlando, en la medida de lo posible, los movimientos de Lobo Antunes, como si él fuera un paciente mío internado en el psiquiátrico de Lisboa, pero en libertad provisional aquí en París. Y me he puesto a evocar ese hospital Miguel Bombarda en el que nunca he estado, pero sobre el que he leído muchas cosas. Me he quedado recordando -como si hubiera estado de visita allí algún día- a todos esos enfermos que, como si desearan escaparse y salir a la calle, se agolpan, según me han contado, a la entrada del edificio principal, aunque también hay muchos deambulando por los jardines. Y he pensado en ese manicomio en el que escribe todas las mañanas Lobo Antunes y en el que muchos de los enfermos allí recluidos están inscritos con nombres y direcciones falsos, porque es la forma que tienen las familias de deshacerse de ellos y así no tener que volver nunca más a visitarles. Y, sentado ahí en el salón de entrada del Suède, a pesar de la crueldad de esos parientes, me ha entrado de pronto una profunda envidia de todos esos locos de Lisboa que, a diferencia de mí, al menos tienen familiares en el mundo, aunque éstos se hayan desentendido de ellos."
* Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento, copiado daqui

Ouvido em casa

"O cara esqueceu o telemóvel em casa da amante e a mulher dele ligou para ele e atendeu a amante. Sabe o que ela disse: 'É você que é a chifruda?'. Pô, cara, que azar!"

Fodódromo*

"Na Holanda, a partir do segundo semestre deste ano, será permitido fazer sexo nas praças públicas de todo o país. A data foi muito bem escolhida. Em junho o clima começa a ficar mais ameno para que essa atividade ao ar livre seja ainda mais prazerosa. Algumas regras simples foram estabelecidas para isso: há horários para cada parque; os preservativos devem ser jogados no lixo; o ato só pode ser realizado longe dos parques infantis.
Esta última exigência provavelmente não subsistirá por muito tempo. Já no século XIX Freud acabou com a visão da criança como símbolo de pureza, como ser assexuado, ao afirmar que a sexualidade infantil evolui desde cedo, em várias fases, oral, anal, fálica e genital. Conforme Freud, a função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento e não a partir da puberdade, como se pensava até então. Portanto, dentro de alguns anos, o sexo entre crianças será realizado nos parques infantis da Holanda, e, posteriormente, em todo o mundo civilizado. Claro, que mediante regras estritas. Crianças farão sexo apenas com outras crianças? Ou poderão fazê-lo com adultos especializados em psicologia sexual? Bem, isso será decidido depois.
E em nosso país? Devemos permitir que essa prática civilizada seja aqui realizada? De maneira informal, eu diria caótica, já é realizada. Não é raro eu passar à noite na praça Antero de Quental, o poeta português que escreveu alguns dos sonetos mais bonitos da nossa língua – todos conhecem o Tormento do Ideal, cuja primeira estrofe diz: "Conheci a beleza que não morre e fiquei triste" -- , pois como dizia, ao passar à noite na praça Antero de Quental, voltando da última sessão de um dos cinemas do bairro, é comum eu ver mendigos copulando nos bancos do logradouro.Quase sempre estão embriagados, e a proporção é de uma mulher para três homens. Certa madrugada em que saí para passear encontrei uma dessas mulheres derreada num banco e sentei-me ao seu lado, e depois de eu lhe dar dinheiro para ela almoçar num pé sujo que tem na praça, perguntei se era desagradável aquela situação, mesmo ela consentindo, uma espécie daquilo que em inglês se chama "gang rape". "Nem todos dão no couro, ela respondeu. Alguns deitam em cima de mim e não fazem nada, estão muito chumbados para fazer isso. Outros conseguem enfiar, mas saem logo. Um saco. Há tempos que não dou uma trepada boa."
Cheguei à conclusão de que quando forem liberadas as nossas praças para prática de sexo os mendigos, conquanto não sejam discriminados, terão que obedecer a regras um pouco mais estritas. Primeiro não poderão fazê-lo embriagados; segundo, haverá praças especiais para eles, por exemplo, na praça Nossa Senhora da Paz eles não poderão entrar. É claro que quando as praças forem liberadas o contingente de guardas da Prefeitura deverá ser aumentado, para garantir proteção para os copuladores em geral, sejam mendigos ou não, e também fiscalizar se as regras estabelecidas estão sendo obedecidas pelos praticantes.
Creio que alguns dos melhores locais para isso – existem outros, que não alinho aqui para poder ser breve e conciso -- são:
A Quinta da Boa Vista, para os moradores da zona norte. A Quinta oferece espaço para abrigar simultaneamente muitos casais com conforto absoluto. E os antigos moradores, D. Pedro I e D. Pedro II e todos os membros da família Imperial não se incomodariam, principalmente D. Pedro I, cuja satiríase é famosa. Nem se oporão a isso os bichos empalhados que atualmente ocupam o belo palácio transformado em museu. Mesmo se você não morar na zona norte vale a pena ir dar uma trepada lá com a sua namorada ou o seu namorado e contemplar o magnífico palácio em estilo neoclássico. D. Pedro II encarregou o botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou da reformular o seu traçado e paisagismo, e Glaziou ornou o eixo central do jardim com uma alameda de sapucaias, inaugurada em 1878.
O Campo de Santana, também conhecido como Praça da República, é um parque histórico também projetado por Glaziou e que, nos tempos coloniais era um grande pântano, quando começaram os primeiros aterramentos. O Campo da Cidade, ou Campo de São Domingos, como também era conhecido, tornou-se marco divisório entre a cidade e sua zona rural. Até hoje separa o centro ("cidade velha") do bairro Cidade Nova. Em 1753, era chamado Campo de Santana, nome originado da igreja nele construída, local de grande afluência de devotos, que foi demolida em 1854. É um lugar lindo, o porte majestoso das figueiras seculares, com raízes torcidas e trabalhadas pela própria natureza, deixa fascinado os dendrólatras, como eu. No tempo em que eu freqüentava o Campo ele era habitado principalmente por cotias, um simpático roedor de pequeno porte. Atualmente ocorre no Campo de Santana uma triste realidade, comum em vários locais da cidade do Rio de Janeiro. O estúpido abandono de animais indefesos incapazes de sobreviverem sem ajuda, como cães, coelhos, e até patos e galinhas, é algo que deverá ser evitado pelo governo municipal. Sei que essa crueldade é universal, na França as pessoas costumam abandonar seus cães e gatos no Bois de Boulogne quando chega o verão e elas entram em férias e não têm com quem deixar os seus animais.
Praça Nossa Senhora da Paz. Não é um local muito propiciatório, apesar de chic. Mas dá para quebrar o galho dos grã-finos de Ipanema e Leblon. Algumas obras deverão ser realizadas, mas de pequeno porte.
A minha praça, Antero de Quental, será outro point, mas somente após o mendigos serem proibidos de conspurcar-la. Como disse acima não sou contra os mendigos, como poderia sê-lo num país miserável como o nosso? Apenas os mendigos precisam ser educados e isso demanda tempo.
Praça General Osório. Também sem muito conforto, terá que sofrer algumas obras que a tornem mais agradável e adequada.
Repito: é essencial que os casais tenham a proteção (e de certa forma sejam discretamente fiscalizados, para que não joguem preservativos fora das caixas coletoras que serão instaladas para esse fim) da Guarda Municipal, cujo contingente deverá resultar de um recrutamento e seleção cuidadosos.
Finalmente, como serão definidas essas relações sexuais? Evidentemente serão permitidas não apenas as relações heterossexuais. Também as homossexuais serão aceitas, na verdade todo tipo de relação sexual, desde a fetichista – sexo com bonecas infláveis, por exemplo -- até o coitus cum bestia, sexo com animais.
Um governante mais empreendedor poderia construir um Fodódromo, no próprio campo de Santana, ao lado da cascata que lá existe, onde, além de torneios eróticos periódicos, no dia 23 de abril, quando se homenageia São Jorge, padroeiro da cidade, seria coroado o Casal Copulador do Ano, eleito segundo rigorosos critérios de seleção.
Quando isso tudo acontecer, podemos afirmar que o nosso país se alinhará com os países mais desenvolvidos culturalmente do mundo."

* Rubem Fonseca

"O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."
João Cabral de Melo Neto

Segunda-feira, Maio 12, 2008

segundas

A minha cabeça está enorme, tenho sono dos pés ao cabelo, só posso estar no escritório fechada. O homem das obras assobia o "Winds of Change", dos Scorpions. Que ninguém se queixe das segundas-feiras. Que venha uma onda de sono e me afogue.

Domingo, Maio 11, 2008

saudades

Quando me lembro da minha avó, vem-me à cabeça um conto da Clarice Lispector, onde a protagonista é uma velha que tem de aturar os filhos que lhe preparam uma festa de aniversário, onde ela acaba a cuspir.A minha avó está em estado vegetativo há mais de oito anos. Apenas se apercebeu, neste tempo que passou, que o marido tinha morrido. Deixou de reconhecer as pessoas. Num período reconhecia o meu pai e a minha mãe, a quem chamava nomes. Depois passou apenas a chorar e a gritar. A única forma de perceber se reconhecia as pessoas era pelo choro. Agarrada à minha mão, chorava como uma criança. Durante algum tempo, senti-me obrigada a ir lá. Depois, deixei de conseguir. A minha avó era um bebé: usava fraldas, cremes para as assaduras e a família fazia questão de lhe dar papas e frutas esmagadas por um tubo. Também comemoravam os seus anos e ficavam magoados se eu não ligasse à avó. Eu tive de explicar que a avó não se ia levantar da cama para ouvir a minha voz no telefone. A minha avó era minha.A minha avó era má, exagerada, intriguista, mas com um sentido de humor arrebatador. Era analfabeta e não me deixava brincar na rua da uma às três da tarde, porque era a hora das cobras passearem. Só me permitia lavar o galinheiro e, se não estivesse frio, regar o jardim. Durante horas, recheava lulas para o meu jantar, fazia-me ovo mexido para o lanche e um leite quente, com bolachas maria antes de dormir. A minha avó era um forno. À noite, deitava-me entre ela e o meu avô e aquecia imediatamente.A minha avó tinha a pele mais sedosa que já conheci numa mulher. As mãos, cheias de marcas do tempo, eram de bebé, assim como o sorriso. A minha avó adorava o meu sentido de humor. Só ela o percebia. Um dia, no Natal, eu subi para cima de uma cadeira e desatei a cantar “A Igreja estava toda iluminada”. A minha avó riu-se. Eu olhei para a minha avó e ri-me. Olhámos uma para a outro - azul com azul - e desatámos a chorar, sem conseguirmos parar, de nos rirmos. “É dos nervos. Elas ficam assim por causa dos nervos”. A última vez que fui visitar a minha avó a casa, ela não conseguia suster a língua dentro da boca. Abracei-a e beijei-a na testa. Alguém insistia: “É a tua netinha, é a tua netinha”. Emociono-me. Causa-me estranheza como toda a gente reage como se houvesse ali um fio de compreensão sem ser o carinho físico.A minha avó piora de dia para dia, e eu nunca mais fui vê-la. Há pouco, esteve internada no hospital e corroía-me a imagem frágil de uma mulher altiva e arrogante a quem precisam de lavar o rabo. Consegui uma cunha no hospital. Disseram-me que só eu podia fazer alguma coisa por ela, e a cunha foi essa definitiva coisa. Tinha a certeza de que era a minha responsabilidade fazê-lo e fui, de noite, para o hospital para a ver e falar com o médico. A minha avó estava deitada num canto, nas urgências, amontoada entre dezenas de velhos que pareciam já mortos. O médico não me deu esperanças, porque era uma coisa de horas ou de dias e deixou-me lá ficar o tempo que fosse preciso. Nesses minutos, abracei-a, beijei-a, chorei como uma menina, falei com ela, pedi para que estivesse bem, que se deixasse ir, que eu estava ali ao seu lado naquele derradeiro momento. Saí banhada em lágrimas. Voltei para casa, de madrugada, e chorei o caminho todo. A minha avó morreu-me naquele instante. Estava em paz.Entretanto, a mulher altiva e arrogante melhorou e foi asilada num lar. Neste momento, está novamente no hospital, à espera. Eu dou por mim a falar dela no passado. Noutro dia, numa conversa íntima, disse “quando a minha avó morreu”. A família visita-a diariamente, várias vezes por dia, à espera que, num passe de mágica, ela renasça, não importa em que condições. Eu não quero, mas tenho de guardar para mim que a mulher altiva, arrogante e analfabeta já morreu. O que resta dela é a sua pele, sedosa como a de um bebé.

domingo de compras

Eu hoje vi uma vaca na beira da estrada, junto ao Feira Nova. Eu acho que isto merece ser contado.

Sábado, Maio 10, 2008

Um dia de aquisições burguesas com um final decadente, como convém

Tenho seis brasileiros dentro de casa, das 8 às 5, que são uma simpatia e me tratam por "dona" - assim, como no nome do blogue. Almoçam no alpendre, atiram os restos no jardim e os cães até passaram a gostar de estar trancados no galinheiro, porque sabem que a rercompensa vem ao final da tarde.
É tudo muito bonito, mas nem sei onde tenho as cuecas guardadas e custa-me, confesso, frequentar a minha casa com seis marmanjos, nas questões mais escatológicas: comer e ir à casa de banho.
Vai daí (eheheh) e decidi ir fazer coisas proveitosas. Peguei no chaço e fui a Pegões comprar plantas de tomate, pimento, uns grelos, uns melões e umas meloas. Almocei no Migalhas, um restaurante à beira da estrada nacional, aberto 24 horas por dia, dirigido impecavelmente por brasileiros. À saída para fumar um cigarro, olhei para um pinheiro e para a chuva e os camiões a passar e pensei em como era bom viver no campo. Com esses pensamentos altivos, dirigi-me à cave de vinhos de Santo Isidro de Pegões e vim de lá recheada com paletes de Syrah, da colheita reserva de Pegões tinto e de uma garrafa linda de chardonnay e arinto.
Por outra paragem, entrei numa loja de velharias e de tudo e adquiri um móvel, tipo bar, muito, muito antigo - nunca vi nada assim, uma roda de carroça e uma cadeira de massagem, que tive direito a experimentar e que não me sai da cabeça. Hei-de enfiá-la em qualquer lugar.
Chegada a casa, a casa sozinha, só com tijolos e vigas de ferro a suportar o tecto, preparámos uma refeição ligeira. Antes, bebemos um copo de gin tónico - que é quando debatemos as ideias de decoração, depois atirámo-nos a umas ameijoas fresquíssimas e ao chardonnay/arinto. "Muito bom, muito leve, intensamente frutado". Seguiram-se uns cogumelos assados e umas costoletas de cochonillo, para acompanhar o syrah. Só temos luz de velas e, sem tecto, fica frio. Fui buscar uma manta para as pernas e percebi que estava zonza. Sentei-me, apaguei o cigarro que tinha acabado de acender e digo: eu vou só ali à casa de banho e já volto. Acordei hoje, às sete e trinta, com três gajos na cama - o legítimo e dois cães. Fui encontrada deitada na cama, ontem, meio vestida, meio despida, a ressonar como um camionista. Hoje é um dia que não vai ter existência cerebral. Cumpre-se apenas calendário. E eu juro, mas juro, nunca mais bebo vinho branco.

Terça-feira, Maio 06, 2008

Columbine


Ontem, na cidade, numa tasca onde vão muitos administrativos, bancários e gestores, sentei-me numa mesa atrás de quatro pessoas - duas mulheres e dois homens. Falavam alto, riam-se, trocavam de pratos, beberam jarros de vinho, enfim, o costume nos almoços laborais portugueses. Uma das mulheres sobressaí-se pelo ruído da voz e porque não deixava ninguém falar. Contava que tinha visto um programa sobre ecologia na RTP2 e tinha ficado muito impressionada com aquilo que podemos fazer nas nossas casas: "sabias que devias fechar a torneira enquanto lavas os dentes? e que só deves lavar roupa ou loiça na carga máxima? e que no duche deves fechar as torneiras enquanto te lavas? e a reciclagem? Se não fizermos nada, não vai haver país para os nossos filhos. Levaram uma mulher a uma lixeira e devias ter visto, a mulher ia morrendo só com o cheiro, eu vomitava-me toda, e a mulher convenceu o marido a separar o lixo, e é muito fácil, é só espalmarem as garrafas..."
Eu sabia que a RTP2 apostava no serviço público, mas fiquei impressionada com as consequências que o programa teve naquela mulher, adulta, em pleno século XXI.
Passavam os pratos, mais guardanapos de papel, sff, enquanto palitava os dentes e olhava para mim de soslaio, porque eu ria-me, eu estava impávida, ficara até aflita e com vontade de enfiá-la num vidrão. Eu não consigo disfarçar, e ela também não. "Ah, mas eles usam uma máscara contra o cheiro, eu não suportava trabalhar ali, é como os médicos LOJISTAS, quando houve aquele acidente com um avião no Algarve e ficou tudo queimado, os médicos LOJISTAS começaram a beber logo em Lisboa. Cada um leva a sua garrafa de uísque para chegar lá e não sentir nada. Quando lá chegaram, eram só corpos carbonizados, uns em cima dos outros, diz que aquilo tem um cheiro horrível, o que vale é que cada um tem a sua garrafa de uísque. É como em Cuba, os velhos vão lá ser operados aos olhos e nem os anestesiam, é com rum. Noutro dia, vi uma operação dessas, bem, é um horror, o olho todo aberto, depois queimam aquilo e deve deitar um cheiro horrível, mas o que vale é que os velhos ficam a ver, eu cá é que não conseguia fazer essa operação, os médicos têm estômago para cada coisa..."
Vêem as sobremesas e um copo de uísque para cada um. Ela continua a palitar os dentes e a olhar para mim. Eu nem consigo olhar para o bacalhau cozido que tenho no prato. Sinto-me quente, a ferver, o coração perto da boca, o pulso a latejar e uma enorme vontade de sair daquele buraco e nunca mais voltar a Lisboa, ou se voltar, sem olhos e sem ouvidos. Eu estou com vontade de apertar aquela mulher pelo pescoço e sentir os ossinhos a estalarem nas minhas mãos e a responder-lhe a tudo, com rapidez e acutilância, respostas que ela não entenderia mas que eu gritar-lhe-ia naqueles ouvidos sujos de tanta porcaria que lá entra. Senti um ódio visceral a uma pessoa que não queria conhecer, mas fui obrigada a conhecer.
Levantaram-se e ela, com uma barriga de sete meses, disse: "Vamos que agora só me apetece uma cigarrada." Só me surpreenderia se ela arrotasse. Ao pensar nisto, rio-me, e passa.

irritâncias

Momentos em que tenho MESMO de fechar os olhos quando estou a ver TV:
- quando passa a menina do Rock in Rio com aqueles olhos simpsonmaníacos
- quando passa o Clooney no Nespresso
- quando passa o anúncio do Skip é bom sujar-se
- quando passa um anúncio a uma pasta de dentes ou cola para dentaduras onde se vê um lavatório com sangue ou dentes a cair
- quando passa o novo anúncio do bcp, em que milhares de jovens ficam delirantes porque entregaram o seu dinheiro ao banco e o lema é qualquer coisa: é bom mudar e ter a vida de pernas para o ar
- quando passa o anúncio do "génio da bola" do Cristiano Ronaldo
Momentos em que tenho MESMO de fechar os olhos e os ouvidos quando estou a ver TV:
- quando fala a Ana Drago
- quando fala a Odete Santos
- quando fala a Sílvia Alberto
Momentos em que não só arregalo os os olhos como limpo os ouvido e ponho mais alto quando estou a ver TV:
- quando fala o Ribau Esteves
- quando fala o Santana Lopes
- quando fala o Pedro Silva Pereira
- quando fala o José Castelo Branco
- quando fala o Crespo, no geral

serviço público

Atenção, se "perdeu" a sua carteira.

Lisboa, 6 de Maio de 2008 – Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, Carolina Patrocínio e os animadores do Rock in Rio-Lisboa 2008 de uma forma divertida com muita música e animação surpreenderam os utilizadores dos transportes públicos que esta tarde se encontravam na estação de metro do Campo Grande.

Diferentes personalidades reconhecidas do grande público – Ricardo Carriço, Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, Carolina Patrocínio e Vanessa Oliveira - que estão envolvidas no projecto social do Rock in Rio vão continuar a premiar in loco e de surpresa as pessoas que estiveram a utilizar determinado transporte público nesse dia.

Piadinhas de nerd

Bad Request

Error 400

serviço público

Nunca bebam um copo de vinho sem antes se questionarem se terão tomado um atarax antes. Mas até é bom para quem gosta de dormir sempre na mesma posição.

Mena no Crespo

Casal em casa, ou no que resta dela, entre escombros e tijolos, pergunta:
- Quanto é que vale a aposta que não vai demorar um minuto para ela falar em "Londres"?
- Eu não gosto de perder.
(e assim foi)